A história da história da morte do ditador Líbio

Sinceramente, há até alguns minutos não aguentava mais ouvir falar sobre a morte do Gaddafi (ou Kadafi, como a empresa em que trabalho gosta de chamá-lo). Todas as homepages dos sites de notícia usaram e abusaram de imagens horríveis do corpo do ex-ditador líbio durante o dia, e esgotaram os links possíveis sobre a história.

Porém, eis que acesso o Columbia Journalism Review, e descubro uma matéria extremamente interessante e bem humorada sobre a evolução dos rumores sobre a morte de Gaddafi no Twitter ao longo do dia.

Fiz recentemente outro post citando o Twitter, mas estou cada vez mais certa de que a ferramenta social virou uma poderosa ferramenta dos jornalistas.

Enfim, à história da história: http://www.cjr.org/the_news_frontier/the_story_of_the_gaddafi_story.php

(E deixo a pergunta: onde mais seria possível encontrar isso, se não em um site vinculado à um centro de excelência de estudo e pesquisa do jornalismo?)

Eles acreditam

“Eles” são o Carnegie Institute e a Knight Foundation. E no que acreditam? Na importância do ensino de jornalismo para formar profissionais preparados e para tirar o jornalismo da crise que vive atualmente. Se são utópicos? Talvez, mas suas iniciativas tiveram consideráveis impactos nas escolas de jornalismo americanas na última década.

A “Carnegie-Knight Initiative” foi criada com o objetivo de melhorar o mercado de notícias americano e revitalizar as escolas de jornalismo, em um trabalho que foi posto em prática e que é detalhado no relatório “Carnegie-Knight Initiative on the Future of Journalism Education“.

Segundo o documento, em 2004, a McKinsey & Company, uma consultoria internacional, entrevistou 40 pessoas proeminentes da imprensa e produziu um relatório chamado “Improving the Education of Tomorrow’s Journalists”. Nesse documento, ficou evidente a crise pela qual passava o jornalismo e, além disso, que as escolas não estavam oferecendo soluções para ela.

Sete anos depois, quando a “Carnegie-Knight Initiative” já tinha colocado em prática seu trabalho, o processo de entrevistas foi repetido, e descobriu-se que a impressão geral era de que o ensino de jornalismo tinha se desenvolvido e estava melhorando.

Eric Newton, do Nieman Lab, escreveu um artigo bastante interessante que discute a iniciativa, e através do qual eu a descobri. Vale a pena: http://www.niemanlab.org/2011/10/eric-newton-journalism-schools-can-be-leaders-in-innovation-and-the-news/


			

O que os Trend Topics nos ensinam sobre o jornalismo

Megan Garber, editora assistente do Nieman Journalism Lab, site sobre jornalismo vinculado à Harvard, publicou nesta semana um artigo bastante interessante comparando o modo de funcionamento dos Trend Topics do Twitter com a escolha de pautas no jornalismo.

Ela avalia o ranqueamento da hashtag #OccupyWallStreet, movimento que surgiu contra a interferência que os grandes bancos e as multinacionais têm no processo democrático, e que acabou inspirando diversos protestos anticapitalistas pelo mundo.

A hashtag, segundo ela, não alcança bons resultados nos TTs porque não registra picos ao longo do mês em que foi utilizada, e um dos principais recursos do Twitter para identificar TTs seriam esses picos de citação. Outro tópicos como #ThankYouSteve (referência à Jobs), alcançam picos e obtém melhor ranqueamento, apesar de desaparecerem em poucos dias.

A relação que Megan faz entre jornalismo e Twitter é exatamente essa. Ela diz que a nossa tendência como repórteres, assim como a rede social, é identificar esses “picos” e valorizar as novidades. Isso, porém, desviaria nossa atenção dos assuntos mais amplos, complexos, duradouros, e mais relevantes a longo prazo. É o embate entre o assunto “long-term” e “temporary”. Entre  o nascimento do filho de Sarkozy com Carla Bruni e a relação da França com a Líbia [esse comentário é meu].

Ela termina com um claro posicionamento sobre a lógica do Twitter em relação ao jornalismo, dizendo que geralmente, os assuntos mais importantes para serem abordados pelos jornalistas são o oposto de “trending”.

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Escolas de jornalismo como espaço de reflexão

Terminei de ler recentemente um estudo intitulado “The Story So Far”, realizado por três pesquisadores da Columbia Journalism School, que reúne, em nove capítulos, algumas experiências de sites de  jornalismo nos Estados Unidos. A pergunta que o estudo tenta responder, como os próprios autores colocam na introdução, é que modelos de jornalismo na esfera digital americana o mercado poderá sustentar, e como.

Através de entrevistas com editores e financiadores das mais diferentes empresas jornalísticas, desde a internacionalmente reconhecida CNN até iniciativas locais como o Alaska Dispatch, os pesquisadores levantam quais as novas experiências que estão surgindo no mercado, e até que ponto elas estão dando certo no sentido de conquistar leitores e anunciantes. Eles também tentam analisar os motivos do sucesso.

Os detalhes dos estudo não vem ao caso nesse post, mas quem quiser saber mais pode ler a versão em PDF: http://cjrarchive.org/img/posts/report/The_Story_So_Far.pdf. Cito o Story So Far aqui para fazer uma reflexão.

O levantamento das informações e a organização das experiências que resultaram em ganho financeiro para as empresas só foi possível porque três pessoas decidiram parar para estudá-las.  Repórteres e editores que atuam no mercado dificilmente teriam tempo para fazer isso, uma vez que geralmente concentram seus esforços em manter a produção dentro de um padrão já estabelecido em suas empresas.

Quem chega ao final do texto, porém, termina com uma grande bagagem para pensar as possibilidades de se fazer jornalismo de qualidade na internet sem, ao mesmo tempo, ter necessariamente prejuízos na empreitada, algo que a maioria dos jornais tradicionais está com dificuldade de fazer. São cases de sucesso e de fracasso que podem ser adaptados, melhorados e aplicados em novas iniciativas.

Assim, inauguro o blog com este texto para exemplificar a importância das escolas de jornalismo como centros de estudo e pesquisa, e não apenas como local onde os alunos são treinados para entrarem no mercado – o que também não deixa de ser uma função importante. Elas podem adquirir um papel importante na reflexão sobre possibilidades futuras, e no diálogo entre a teoria e a prática, especialmente no momento de transição de meios que as empresas vivem atualmente.